Vegana e pobre, pode?


Luciene Santos

*Inayé Ramires

Seja por ideologia política, filosofia, motivos de saúde pessoal ou quaisquer outras razões, o veganismo vem ganhando cada vez mais adeptos e alcançando vários espaços. É claro que essa visibilidade maior acaba acarretando também em certa repercussão negativa: também não são poucos os que se opõe ao movimento, baseando-se nos mais diversos argumentos, como, por exemplo, de que o veganismo é uma ideologia pouco acessível, que só funciona com pessoas brancas e com boas condições financeiras, que é um meio racista e excludente, entre outras tantas justificativas usadas para se contrapor a esses ideais.

Luciene Santos é uma mulher lésbica, vegana, preta e de periferia, que, através de suas redes sociais e rodas de conversa, faz um trabalho de conscientização sobre veganismo negro e acessível. Ela afirma que é possível adotar um estilo de vida livre de exploração animal mesmo vivendo com menos de um salário mínimo, pagando contas, aluguel e se alimentando de forma nutritiva e consciente. Através de sua conta no Instagram (@sapavegana), ela dá dicas de receitas simples e baratas, além de discutir temas bastante pertinentes e mais profundos, como por exemplo as formas em que se dá o racismo no movimento vegano. Pensando nisso, pedi a Luciene que respondesse algumas perguntas que nos permitissem entender melhor a importância de um veganismo que seja preto e que também seja acessível.

O que você tem a dizer sobre a fala de que o veganismo é um movimento de e para pessoas brancas e de boa situação econômica?
O veganismo foi elitizado. A informação sobre este estilo de vida chegou para as camadas mais privilegiadas da sociedade e as empresas, sabendo que essas pessoas têm condições financeiras, colocaram em circulação produtos caríssimos que carregam em suas embalagens a expressão “vegano”, e a verdade é que às vezes nem são. Quando pessoas pobres vão ao mercado e encontram a maionese tradicional por um valor e a maionese “vegana” cinco vezes mais cara é óbvio que vão pensar que o veganismo é para quem tem dinheiro, e quem tem dinheiro, em regra, nesse país? Pessoas brancas. Então, a ausência de informação cumulada com o preço absurdo de produtos que carregam o termo “vegano” ajudaram a criar no imaginário da população a ideia de que veganismo é coisa de rico. Além disso, muitos veganos privilegiados não entendem as particularidades da população brasileira e que é preciso adaptar o veganismo às vidas das pessoas, que não adianta achar que quem vive com um salário mínimo ou menos por mês vai vivenciar o mesmo veganismo de quem vive com dez vezes mais. E, para completar, tem os racistas, que infelizmente não são poucos, que acham que adeptos do candomblé e umbanda matam cachorros e gatos e deixam nas encruzilhadas como oferenda, que nunca pisaram no terreiro, que nunca conversaram com candomblecistas e umbandistas, mas acham que têm propriedade para falar dessas religiões e de muitas outras coisas que envolvem a população preta.

Enfim, nós vivemos no Brasil, racistas e desonestos existem em todos os cantos deste país, o que nos resta é mostrar alternativas, mostrar para a população que entendemos suas questões e as respeitamos. Que é possível se posicionar contra a exploração de animais humanos e não-humanos sem precisar manter um caro estilo de vida.

 O que te motivou a adotar o veganismo? Sua motivação continua, ainda hoje, sendo a mesma do início, ela mudou ou acrescentou algo?
 Escolhi o veganismo depois de assistir um vídeo sobre abate de animais, fiquei tão chocada que, assim que ele terminou, assisti vários outros, no mesmo dia parei de comer animais e derivados e fui me adaptando, pesquisando etc. Hoje tenho muitos outros motivos, entendo que comer é um ato político, que as indústrias que exploram animais também exploram humanos, que precisamos cuidar do meio ambiente, que se posicionar contra as indústrias que lucram com a exploração também é se posicionar contra a supremacia branca, pois quem mais lucra com tudo isso são pessoas brancas ricas, muito ricas. No entanto, apesar de ter encontrado tantas outras razões, a principal continua sendo os animais.

 De onde veio a ideia de criar a sua conta do Instagram, @sapavegana?
 Quando me tornei vegana percebi que as pessoas com quem convivia não sabiam quase nada sobre veganismo, assim como eu. Com o decorrer do tempo, conforme aprendia novas receitas, temperos, alimentos etc., percebi que seria útil passar estes ensinamentos para outras pessoas, pessoas próximas, então resolvi fazer o perfil.

 Para você, qual a relação entre o autocuidado enquanto pessoa preta, mulher preta e o veganismo?
 Quando eu comia carne dizia coisas como “meus ancestrais não inventaram a caça para eu comer alface”. Hoje vejo o quanto essa fala não condiz com a realidade. O Movimento Afro Vegano (MAV) compartilhou há algumas semanas, em sua conta no Instagram, um vídeo sobre Laticínios e Racismo, o especialista é o Dr. Milton Mills, integrante do Comitê de Médicos Preventivos (PCRM) e coautor do relatório sobre o viés racial e étnico nas Diretrizes Alimentares dos Estados Unidos. Ele afirma que 75% dos afro-americanos são intolerantes a lactose. Esse é apenas um exemplo para dizer que a dieta que nos é ensinada nos causa muitos problemas de saúde, pois nossos ancestrais tinham outro tipo de alimentação, um maior contato com a natureza, plantar, colher, aprender com a terra, cuidar da terra. Uma rápida análise nos faz perceber a conexão das religiões afro-brasileiras com a natureza. Nossos ancestrais, pretos, comiam de outras formas e, por isso, essa alimentação baseada em animais e derivados nos causa tantos males. Por isso, hoje eu vejo que quanto mais aprendo sobre a alimentação vegetal mais próxima estou dos meus ancestrais. Por favor, não me entendam mal, não estou dizendo que sou superior ou mais evoluída por isso, não me sinto melhor que ninguém por ser vegana. O que estou dizendo é que esse respeito aos animais me faz sentir mais próxima dos meus.

 O que você acha que acaba tornando tão grande essa distância entre o movimento negro e o veganismo? Existe, de fato, essa distância?
 Sim, a distância existe. Um dos motivos é o que relatei no começo, os racistas, o quanto o movimento foi elitizado. Além disso, tem uma outra questão, quando tiraram nossos ancestrais de seus respectivos lares e trouxeram para cá, escravizando-os, não tiraram “apenas” a liberdade, também tiraram os alimentos, aqui eles passaram a viver de restos, muitos de nós ainda vivem. Por isso, gostamos de fartura, muitas vezes essa fartura envolve animais e derivados. Lembra dos episódios de Todo Mundo Odeia o Chris? Para o Julius refeição sem carne não é refeição. E é assim que muitos de nós pensamos, é natural, tantos anos passando fome é claro que queremos abundância, mas quem disse que não é possível ter abundância na dieta vegetariana? Por que para satisfazer nossos desejos alimentares por tanto tempo reprimidos temos que comer animais?

Eles nos tiraram de nossas terras, nos trouxeram para cá, nos deixaram sem comida e agora que temos um pouco mais de acesso nos dão alimentos que nos deixam doentes e podem até nos matar, ou seja, continuam lucrando com nosso sofrimento, agora com ferramentas diferentes. Por estes e outros motivos pessoas negras estão tão distantes do veganismo.

Não estou inventando tudo isso, não é achismo, é fato. Existe um documentário chamado The Invisible Vegan que trata de padrões alimentares não-saudáveis na comunidade afro-americana, infelizmente acredito que só é possível encontrar o trailer legendado na internet.

Por fim, não estou dizendo que todas as pessoas negras precisam ser veganas, estou dizendo que o veganismo é possível. Ser vegano não é sobre comprar produtos caros, pode ser se você tiver condições, mas também pode ser sobre aprender a ir na feira quando ela estiver acabando e comprar vegetais por preços baixos, aprender que alguns mercados fazem promoções de vegetais em determinado dia da semana, aprender que você pode melhorar sua gastrite diminuindo o consumo de carne, aprender que aqueles grãos da casa do Norte podem virar dezenas de receitas, aprender a questionar o que o sistema te fala o que é comida.

 Por último, o que você diria para as pessoas que afirmam que o veganismo é “coisa de brancos”?
 Aprendo muito com pessoas pretas sobre cuidado, respeito e empatia, então não acredito que cuidar da própria saúde, de outras vidas e do meio ambiente seja “coisa de branco”. Existem veganos pretos no mundo todo, e é importante entendermos o veganismo a partir daí, vocês verão que este estilo de vida cabe muito bem em nossas vidas. Procurem perfis de pretos veganos nas redes sociais, pesquisem sobre veganismo preto, diferente do que muitos pensam, nós existimos e estamos construindo muita coisa.v

⁞⁞ Via blog Quilombo Cibernético
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