Brasil sem carne (nas segundas)



Até para quem não é vegetariano, passar um dia sem comer carne pode ser bem saudável. Se completados todos os nutrientes necessários para a dieta diária, mudar para um almoço mais saudável ou um lanche leve já é o primeiro passo para a reeducação alimentar. E é isso mesmo o que estão descobrindo milhões de brasileiros que, pelos menos nas segunda-feiras, deixam de lado o cardápio carnívoro e com essa atitude fizeram da campanha brasileira Segunda sem Carne a que apresenta maiores impactos no mundo.

A Segunda Sem Carne surgiu em 2003 nos Estados Unidos e hoje já está presente em mais de 40 países, mas é no Brasil que ela tem gerado mais impacto recentemente, sendo que nosso país é o maior produtor e o maior consumidor de carne do planeta. Por aqui, a iniciativa foi lançada em 2009. De lá pra cá, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), vem trabalhando para que a substituição da proteína animal pela proteína vegetal, pelo menos um dia por semana, seja implementada pelo poder público, diminuindo a demanda coletiva por produtos de origem animal e gerando benefícios para a saúde das pessoas, para o meio ambiente e para os animais.

Para alcançar esse objetivo, a SVB tem contado com parcerias importantes na gestão pública permitindo que, en conjunto, os diversos programas pouparam, no ano de 2017, nada menos do que 2.000 toneladas de carne.

Nas escolas municipais de São Paulo, a introdução do cardápio vegetariano se iniciou gradualmente em 2011, passando por criteriosos testes de aceitação dos alunos. “A implementação da merenda vegetariana em uma rede de ensino ampla e complexa como a de São Paulo demonstra que esta experiência pode ser levada adiante em qualquer município brasileiro”, incentiva Alexandre Schneider, Secretário Municipal de Educação de São Paulo. 1 milhão de alunos beneficiados, poupan 436 toneladas de carne ao ano.

Já na rede estadual de ensino de São Paulo, a Segunda Sem Carne virou realidade em 2016, alcançando a marca de 100 municípios participantes em agosto de 2017. No cardápio, feijoada vegetariana com feijão preto e legumes, além dos tradicionais arroz e couve como acompanhamento. Além de incluir no cardápio, a Secretaria também está orientando as escolas e os próprios estudantes sobre os benefícios dos pratos alternativos. 

A Segunda Sem Carne, porém, não se limita a ambientes escolares. Desde 2014, os restaurantes populares do programa Bom Prato também começaram a substituir a proteína animal pela proteína vegetal às segundas-feiras. “Essas refeições contribuem para uma melhor saúde dos usuários do Bom Prato, já que as proteínas vegetais – como soja, feijões e outros alimentos – são vantajosas para evitar diabetes, hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares”, explicou Floriano Pesaro, Secretário de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo. 4 mil usuários deixam de consumir 34 toneladas de carne cada ano.

Para esta segunda você poderia fazer a experiência de suspender só por hoje a carne e encarar um prato diferente. Afinal, se trata de abrir o leque do cardápio experimentando novos sabores. Se quiser pode tentar com esta receita super facílima de levar aos fatos:  


Terrine de queijo, tomate e abobrinha
Terrine é um prato saboroso, colorido e prático. Tem gente que gosta de comer ele na temperatura ambiente (é só deixar esfriar um pouco depois de tirar do forno). Já os brasileiros o preferem frio. Você esfria na geladeira e deixa (mínimo 1,30h) até o momento de servir ou então guarda (pode ficar na geladeira até 2 dias).

Como entrada, é só cortar fatias não muito grandes e servir com uma saladinha ao lado e, como prato principal, basta aumentar a fatia e colocar uma salada ao lado. Que tal?

A escolha do queijo depende do momento e do quanto se quer ou se pode gastar. Quem gosta de azeitonas coloca azeitonas, que podem ser pretas ou verdes, e quem não gosta não põe. Também dá pra inventar, acrescentando alcaparras, anchovas em conserva, uma ratatouille no centro no lugar dos tomates.

Você pode fazer uma terrine única ou em porcões individuais. É receita mediterrânea com todas as letras maiúsculas. Vamos lá?

Ingredientes
  • 4 tomates maduros cortados ao meio e sem sementes (500 g)
  • 1 dente de alho inteiro e sem casca
  • 4 ramos de tomilho
  • 2 ramos de manjericão
  • 4 abobrinhas italianas pequenas (500 g)
  • 400 g de queijo macio (minas frescal, ricota, boursin, cream cheese, cabra cremoso)
  • 100 g de azeitonas pretas sem sementes e fatiadas
  • Azeite de oliva extravirgem
  • Sal
  • Pimenta-do-reino

Preparo
  • Unte com azeite uma fôrma pra bolo inglês de 22 cm ou seis forminhas individuais.
  • Tomate – Aqueça o forno a 160ºC (médio). Numa tigela que possa ir ao forno e acomode os tomates bem juntos, coloque os tomates, o alho, as ervas, sal, pimenta e regue com azeite. Asse por uns 45min, até que os tomates estejam macios e perfumados. Retire do fogo, descarte as peles soltas, o alho e as ervas, reserve (ou deixe esfriar e guarde na geladeira por até 3 dias).
  • Abobrinha – Aumente o forno pra 180ºC (médio-alto). Unte 2 assadeiras grandes com azeite, corte as abobrinhas em fitas de uns 3 mm de espessura e espalhe nas assadeiras sem amontoar. Polvilhe as fitas com sal e pimenta dos dois lados, regue com azeite e leve ao forno por uns 20min, virando na metade do tempo, até amaciar e dourar.
  • Queijo – Numa tigela, misture o queijo (esmague de leve com um garfo se for preciso), sal, pimenta e um fio de azeite até obter um creme homogêneo, reserve.
  • Montagem – Forre a forma com as fitas de abobrinha ligeiramente sobrepostas pra não ter espaços livres. Preencha a cavidade com camadas de queijo, tomates, azeitonas e queijo e feche totalmente com a abobrinha. Leve à geladeira por pelo menos 1h e até por 2 dias.

Na hora de servir, desenforme a terrine sobre um prato.v

___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação
Ler mais

Uma prova de que o Brasil (ainda) tem jeito



O país anda à deriva. Parece um Titanic que demora em  afundar e flutua sem direção, sem bússola, sem leme, sem capitão (será uma condena ou uma liberação?). Lá em cima continua a farra, como se nada estivesse acontecendo. Cá em baixo, o ressentimento propícia a revanche e o pessoal inventa sua farra própria - pobre, mínima, degradada, catártica. Das lajes das almas surgem malandrinhas e malandrinhos encarnando a maior mediocridade musical que já tenha padecido o Brasil que, a falta de arte, deve sustentar-se no apelo pornográfico e a devassidão ventilada nas denominadas redes sociais. O que está havendo, que aconteceu? Alguém pergunta: Que tiro foi esse?... Sem dúvida, um tiro no pé.

Nas derivações desorientadas de nosso Titanic tupiniquim um rio de lixo pseudomusical polui ouvidos e mentes e o carnaval celebra esse desatino insustentável. Porém, quando mais a escuridão escurece e tudo parece perdido nas trevas, acontece o milagre de Santa Cecília trazendo esse Jah-Van.

Jah-Van – Djavan goes Jamaica é um projeto que traz a luz infinita da arte para nos relembrar que os amanheceres são infinitos também. Trata-se de um trabalho que tem como objetivo repaginar grandes sucessos da música de Djavan em ritmos como reggae, ska e rock steady, oriundos da Jamaica.

A produção musical é do talentoso Eduardo Bid e prevé gravar várias faixas onde cada uma terá um intérprete convidado. A canção Nem Um Dia, recém lançada em todas as plataformas digitais, ficou sob a batuta do cantor e compositor Chico César que nos presenteia com uma versão simplesmente maravilhosa, bem reggae: festa, amor e espiritualidade rolando juntos.

Em meio a tanta vacuidade, a tanta banalização, a tanta hipocrisia, o projeto chega até nós como um anjo que nos toca no ombro e nos disse: olha... não desespere, o Brasil ainda tem jeito... aperte o play e vai ver. Vai, malandr@, vai...v     



___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação
Ler mais

O portal da Utopía




*Leandra Leal

Eu sou uma apaixonada por carnaval e não sei falar sobre isso sem amor. Eu costumo dizer que o melhor carnaval é sempre o seu. Não se deve comparar celebração. No meu caso é o da minha infância, do centro do Rio de Janeiro, de Paquetá, dos blocos tradicionais, das escolas de samba, do terreirão…

“Quanto pior o mundo, melhor o carnaval”, me disse a minha sócia Carol Benjamin antes do carnaval de 2016. O medo do futuro era palpável. A crise política, social, econômica e ética era devastadora. A cidade do Rio de Janeiro estava toda em obras e os blocos tradicionais foram realocados em trajetos sem estrutura e prestígio. Achávamos que já estávamos no fundo poço, no auge do caos. Nossa resposta? Sair na rua e celebrar a vida.

Só que no Brasil, o fundo do poço foi redefinido várias vezes ao longo desse período. E no ano seguinte, em pleno carnaval de 2017, a resistência se fez vista no maior “Fora Temer” transmitido em pleno Jornal Nacional. Carnaval é celebração, assim como o aniversário. É um momento de exaltação da existência, só que não é pessoal – e sim da nossa identidade como nação.

Reagimos aos retrocessos com purpurina – se engana quem acredita que a reação com folia é menor. Não se trata de alienação, pelo contrário: é resistência, é construção. É luta sair vestida do seu sonho, da sua fantasia, do seu querer. É  batalha expor seu corpo e sua verdade. O transe carnavalesco nos embute de coragem e nos arma contra a caretice, a repressão, o conservadorismo. E é lindo entender que alguém que pensa muito diferente de você goza desse mesmo direito e isso não te agride. A rua por onde passa um bloco, abriga as maiores rivalidades que seriam impossíveis de se conviver numa timeline. Esse é o portal que precisamos cruzar e gozar todo ano para reencontrarmos nossas utopias.

No passado, existia a certeza que nossos filhos viveriam num mundo melhor que o nosso e se trabalhava para isso. Era um consenso, um desejo e um objetivo de todos. Hoje o mundo está tão confuso que temos a certeza do contrário – o que verá são perdas de direitos, desigualdades, destruição do nosso planeta. É comum nos pegarmos fazendo planos de como nos salvar e levar os próximos anos. Vamos nos contentar com isso? Estamos trocando a utopia pela distopia.

Mas a cada carnaval, temos novamente a oportunidade de romper o condomínio e a bolha do facebook e atravessar o portal da utopia. Retomar a ideia de um mundo igualitário, a favor da liberdade, do amor, do encontro, da arte, da celebração, contra o proibicionismo, a caretice, o machismo, a homofobia, a violência. Nesse momento em que estamos perdendo direitos essenciais em mudanças orquestradas por um governo sem legitimidade, que temos nossas folias controladas por Crivellas e Dorias precisamos sair às ruas e gritar: o carnaval é nosso, o sonho é nosso!

Esse carnaval também pode ser o da afirmação das pautas que estão latentes na sociedade, parte da construção desse novo normal, como diz a Antonia Pellegrino, da mulher sair com o seu corpo de biquíni na rua e não ser importunada, de duas pessoas do mesmo sexo caminharem livres de mão dadas, da mistura de classes. Todos livres na mesma rua por onde o seu bloco passar.

No dia 10 de fevereiro de 2018, precisamos usar a abertura desse portal da utopia para lembrar quem nós somos e o que queremos.v


*Leandra Leal é atriz, autora, produtora, diretora, roteirista e cantora brasileira.

⁞ Via blog #AgoraÉQue SãoElas
___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

Ler mais

Spam






Ler mais

Por um carnaval sem o maldito glitter




O Brasil é paradoxal até o delírio. Em época de carnaval, então?... Na contramão de informações que colocam o glitter como um verdadeiro vilão mascarado, desaconselhando seu uso, a cervejaria Ambev patrocina o carnaval de São Paulo, instalando a Estação Skol, no Largo da Batata, em Pinheiros, onde disponibilizará um chuveiro de glitter, artefato que os foliões poderão usar a vontade e de graça. Com um entusiasmo desvairado, Maria Fernanda de Albuquerque, diretora de marketing da Skol, afirmou que "as pessoas amam, amam colocar glitter, e será um chuveiro mesmo". A Skol irá a jorrar na humanidade d@s histéric@s brincantes um orçamento de R$ 15 milhões em glitter.

Típico do carnaval de rua, a moda de sair grudado de glitter e intercambiar os grudes próprios com os alheios se firmou em 2016. Corpos pouco vestidos mas com muita purpurina e glitter, em uma festa bem colorida mas que virou numa massiva expressão de histeria onde o glitter é usado como pretexto para tocar a outras pessoas mascarando um desejo sexual reprimido. Depois, claro, a ressaca, mais tarde um banho e lá vão as  microbolinhas de glitter pelo ralo, procurando os esgotos através dos quais continuaram sua marcha até os rios e o mar. E aí é que a festa fica pra trás e começa o drama.

Microplásticos é como são chamados as minúsculas partículas feitas desse material que, basicamente, não se decompõe. No caso dos microplásticos usados na pele durante o carnaval, é comum que sejam feitos de copolímeros de plástico e folículos de alumínio.

Os microplásticos são do pior tipo possível. Por conta de seu tamanho, é praticamente impossível recolhê-los e, por essa razão, eles somam 85% de todo o plástico encontrado na natureza. Nas águas, os plásticos costumam matar peixes, tartarugas e outros seres, que os ingerem confundindo com comida. Podem ser engolidos pelos seres mais diminutos até os do topo da cadeia alimentar.

Além da morte dos animais, há ainda a questão econômica. Com a diminuição da vida aquática, toda a pesca fica prejudicada e, também, todos os povos e comunidades que dependem dela para sobreviver.


"Pesquisas recentes dão conta de que microplásticos perturbam o início da cadeia de alimentação aquática, como os plânctons. Também afetam ostras e mexilhões", revela Trisia Farrelly, da Universidade de Massey, na Nova Zelândia, especialista em ecologia urbana.

"Os microplásticos ingeridos por esses organismos podem afetar seu crescimento e atrapalhar sua alimentação como um todo e, consequentemente, impactar toda a cadeia de alimentação."  Plânctons, por exemplo, são um alimento dos peixes, que, por sua vez, alimentam os humanos.

O glitter é contabilizado entre os microplásticos que poluem o oceano - são entre 15 e 51 trilhões de partículas, segundo um estudo de 2015 conduzido por pesquisadores do Imperial College London, de Londres, em parceria com especialistas da Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Holanda, e outros países.

"É plástico feito para ter uma vida muito curta. Você limpa seu rosto ou seus dentes, enxágua e eles vão direto para o ralo", diz Farrelly. O uso de grânulos em produtos como esses foi proibido no Canadá, nos Estados Unidos e no Reino Unido. A Nova Zelândia deve implementar a proibição no primeiro semestre de 2018. Infelizmente, aqui na Brasilândia , seu uso ainda é permitido.

"Eu gosto de coisas brilhantes. Mas com 7 bilhões de pessoas no planeta, não podemos usar as coisas só da maneira como gostaríamos. Precisamos pensar no impacto que causamos", diz Sherri Mason, professora de química da Universidade do Estado de Nova York em Fredonia e especialista em poluição de plástico em ecossistemas aquáticos.

Tentando manter e ampliar o mercado, algumas firmas promocionam um “glitter biodegradável”. Ela observa que, embora seja uma iniciativa positiva, "glitter biodegradável não dará conta da demanda que temos". "Então eu insisto que temos que reduzir o uso de glitter."

Por um carnaval sem glitter nem outros produtos plásticos como Claudia Leitte.
Você pode até pensar que as grandes indústrias poluem demais o ambiente e que um pouquinho de glitter não vai fazer esse mal todo. Mas, convenhamos, o glitter -como a purpurina- é tão necessário assim? Fazer menos que o mínimo para tornar o mundo melhor é realmente fazer muito pouco. Porém, esse pouco já seria alguma coisa e, sobretudo, um exemplo a multiplicar em outras áreas da vida.

Afinal, em vez de se esconder detrás do glitter e dos gestos e atitudes ridículas de pegação  boba, a gente deveria investir mais em se conhecer a si mesma, levantar sua autoestima, ir pra a rua a dançar, cantar, rir e, se alguém aparecer no nosso faro do desejo, encarar a criatura com a maior da naturalidade, gerando condições para um encontro real e certo. Porque, na brincadeira histérica, o jogo da aparência nos deixa  boiando na superficialidade, sem alcançar o fundo e, nas cinzas de cada madrugada, a maioria volta para casa acompanhada apenas pelo tal de glitter.     

O espírito anárquico do carnaval propicia um jogo aberto, lúdico, erótico e libertário e não combina com a prepotência da pegação glitteriada ou a desresponsabilização ambiental. Neste carnaval o maior brilho será aquele que você carrega em sua alma. Cuide de você, cuide das pessoas ao seu redor, cuide dos oceanos e dos bichos que nos facilitam a vida para viver, entre outras coisas, o nosso carnaval. Camisinha, samba no pé e boa festa!v

___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação
Ler mais

Preciso me encontrar (e você?)




"O samba ainda vai nascer, o samba ainda não chegou,
o samba não vai morrer, veja, o dia ainda não raiou.
O samba é o pai do prazer, o samba é filho da dor,
o grande poder transformador".
- Caetano Veloso -



Já no finalzinho de 1975, o jornalista e escritor Juarez Barroso -que andava meio perdido na vida- foi visitar seu amigo Candeia (na foto acima) e lhe disse que tinha um tema, um assunto que achava legal para inspirar um samba: “preciso me encontrar”. O boêmio cearense-pernambucano traduzia nessa frase o drama pelo qual passa todo espírito que chega a esse mundo pois, sendo de outro mundo, desce aqui com a memória coberta de véus e desanda o caminho de volta procurando recordar quem é e que coisas veio apreender nessa viagem.

Acontece que em um ou vários momentos da sua vida, o ser humano sente que está girando em falso, que o processo de recordação não entrega mais dados novos e é aí quando uma voz interior lhe lembra que deve retomar o caminho de re-encontro consigo mesmo. Para poder seguir andando, a pessoa antes precisa se encontrar e assim achar a direção e o destino de sua existência. 

Candeia -o grande sambista da Portela e de Quilombo- atendeu a sugestão de seu amigo compondo uma das mais belas peças da música brasileira: Preciso me encontrar. Bela por simples, bela por certeira, bela pela melodia -que é outro poema-, bela por breve, bela por empatizar com essa agonia vital que provoca e dá fôlego à caminhada do bicho humano em direção a si próprio.    

O caso que a música se tornou um presente de Candeia para que Cartola a incluísse no seu segundo LP, gravado em 1976, quando o compositor da Mangueira tinha 68 anos, disco produzido pelo próprio Juarez Barroso. 

22 anos depois Jaques Morelenbaum e Antônio Pinto assinaram a trilha sonora do comovedor e belo filme de Walter Salles, Central do Brasil (você se lembra?, chorou muito?...). Nessa produção, eles incluiram uma versão sofisticada de Preciso me encontrar e colocaram nela a voz inconfundível do Cartola, tirada daquele LP.

Os arranjos dessa pérola pertencem a Dino 7 Cordas (Horondino José da Silva) que também toca, claro, seu violão 7 cordas. Ele é acompanhado por Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano) em cavaquinho, Elton Medeiros em ganzá, Gilson de Freitas em surdo, Meira (Jaime Tomás Florence) em violão, Nenê (Realcino Lima Filho) em cuíca, Wilson Canegal em reco-reco e Airton Barbosa em fagote. Este último e seu instrumento criam uma introdução e um acompanhamento maravilhoso que acaba fazendo um dueto mágico com o instrumento vocal do grande Cartola, para fazer do samba de Candeia um verdadeiro hino ao desapego, um tributo à vida em sua essência de fluir permanente e transformador. Não vá perder, por favor, aperte já o play.v


___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação
    
Ler mais

Um implacável assassino serial



Brasileiro é tarado por carro. Você é brasileir@?... então sabe disso. O comportamento daria para um ensaio mas neste post o assunto é outro. Só vamos dizer que essa obsessão está diretamente vinculada com o complexo de vira-lata que trata de ser mascarado pela propriedade de um carro e a exibição dele com o objetivo da pessoa achar que alcançou um status social aceitável. A criatura pode morar numa casa miserável, ser analfabeta funcional, não ter uma compreensão cabal das leis de trânsito, ignorar os riscos de dirigir um automóvel, não fazer a menor ideia de como funciona a máquina porém lá vai ela, navegando na maionese com aquele carrão zero km. E aí é donde começa nosso assunto.

Sobreestimulados por uma publicidade perversa e contumaz e fisgados pelas facilidades de um crédito usurário, os brasileiros compram carros à beça e enchem as ruas transformando-as em corredores da morte. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil  aparece em quinto lugar entre os países recordistas em falecimentos no trânsito, precedido por Índia, China, EUA e Rússia e seguido por Irã, México, Indonésia, África do Sul e Egito. Juntas, essas dez nações são responsáveis por 62% das mortes por acidente de tráfego no mundo.

As estatísticas conferem que no Brasil a quantidade de óbitos por acidentes nas ruas beira o espantoso número de 50.000 a cada ano. Uma autêntica tragédia. Porque você poderá notar que essa é uma cifra mais apropriada para mensurar a desgraça de uma guerra que para revelar os efeitos colaterais de um movimento cotidiano, do dia a dia, como é o imprescindível deslocamento das pessoas para praticar sua vida diária.

Hoje a tragédia fica ainda mais sombria porque ela se projeta encima do perfil de uma crise institucional onde a dirigência do nosso país, os supostos líderes e guias do povo brasileiro, travam uma guerra particular, jogando entre eles um roteiro de acusações, armadilhas, mentiras, truques, enganos, rasteiras, ibopes, marketing, delações, subornos, ameaças, como se fosse um jogo de tabuleiro, privilegiando exclusivamente seus interesses privados e pessoais. Nesse marco e protegendo os interesses da industria automotiva, nenhum político tem pensado delatar as causas e conseqüências dessa calamidade absurda.

Enrique Peñalosa, atual prefeito de Bogotá (Colômbia) e autor de uma renovação urbana que deu primacia ao transporte público e à bicicleta, continua a ficar desapontado com o comportamento dos seres humanos nas grandes capitais e o desligamento total dos políticos:  "É surpreendente -disse- que estejamos acostumados a viver sob ameaça de morte. As vias urbanas são como rios venenosos ou radioativos que atravessam a cidade". E faz notar que todas as cidades no mundo oferecem mais espaços públicos para automóveis do que para os seres humanos.

Economista e especialista em temas de mobilidade, Peñalosa cita um livro fascinante chamado Fighting Traffic, de Peter Norton (historiador, professor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Virgínia) no qual o autor revela que, em 1900, ninguém foi morto nos Estados Unidos por conta do carro. Mas, 20 anos mais tarde, entre 1920 e 1930, cerca de 200 mil pessoas morreram em acidentes. Desse total, sete mil eram crianças.

"Quando os carros chegaram, tudo mudou nas cidades - aponta Peñalosa. Mas continuamos a pensar as cidades como se nada tivesse acontecido, construindo mais e mais vias. Deveríamos ter começado a fazer cidades em que, para cada via de automóveis, existisse uma via para pedestres ou um parque. Mas fizemos cidades para os carros, e isso significou, infelizmente, menos e menos para os seres humanos".

No Brasil não tem sido diferente da Colômbia ou de outros países latino-americanos. O 2018 nem começou e já são anunciados lançamentos de 30 novos modelos de carros, com os quais tentarão pegar ilusos consumidores de novidades que ajudem a melhorar os números de venda do 2017. No final do ano passado as empresas automotivas comemoraram as metas alcançadas: com um crescimento de 9,4% nas vendas de carros e comerciais leves, foram botados nas ruas do país 2.172.448 veículos, arrebentando os últimos e precários suportes do sistema viário.

Esse tipo de desenvolvimento desumanizado, onde o lucro das empresas é colocado por cima das necessidades e até da vida mesma dos cidadãos, é uma das principais causas da atual crise econômica, política e moral que dessangra nosso país. As montadoras lançam seus produtos sem o mais mínimo senso comum e sem nenhum tipo de planejamento. Os engarrafamentos nos grandes centros urbanos, com recordes que superam os 200 km de extensão e a quantidade de horas perdidas pelos motoristas presos cujas vidas ficam suspensas entre 3 e 5 horas por dia, evidenciam que não se fabrica carros para facilitar o deslocamento das pessoas senão para abarrotar as já vultosas contas bancárias das grandes firmas.   

É óbvio que alguma medida deveria ser adotada para mudar tanta insensatez mas nenhum governante quer mexer com carros. E não quer porque, igual que as montadoras, ele atende seus privadíssimos interesses em lugar do interesse público. Assim, o político especula que os vampiros donos das automotivas e os inconscientes proprietários dos carros podem ficar incomodados, o que colocaria em risco o financiamento e os votos da próxima eleição. Desse jeito não tem ordenamento do trânsito e muito menos restrições de uso de veículos particulares. E as automotivas aparecem intocáveis e sequer são obrigadas a investir em campanhas de correto uso dos carros e melhoramento das condutas dos motoristas, como acontece em países desenvolvidos para, ao menos, amenizar as morbosas estatísticas.   

Nesse sentido, as palavras do jurista Luiz Flávio Gomes são eloquentes: "O Brasil somente deixará de ser um país pobre, ignorante, corrupto e violento -também no trânsito- quando suas instituições essenciais -Estado/democracia, sociedade civil, sistema capitalista, império da lei e do devido processo- deixarem de seguir a lógica do capitalismo selvagem, extrativista e concentrador, para se alinhar aos países do capitalismo evoluído e distributivo (Áustria, Austrália, Nova Zelândia, Islândia, Canadá, Alemanha, Coreia do Sul etc.), que contam em média com 5/6 mortes para cada 100 mil habitantes, cinco vezes menos que nossa mãe gentil".v

___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação
Ler mais

Eco-alfabetização e eco-feminismo


Observando e desenhando plantas medicinais.

*Bruna de Oliveira

A explicação mais usual e enxuta para definir o termo sustentabilidade afirma que é um processo para satisfazer as necessidades de uma geração sem diminuir as perspectivas das gerações futuras de fazer o mesmo. O entendimento geral sobre o tema, o conhecido “senso comum”, pode fortalecer em nós a ideia que sustentabilidade é um meio para alcançar um mundo melhor (senão melhor, com recursos naturais o suficiente) para nós e os próximos que virão. Bem, quero compartilhar com vocês sobre a recente descoberta que fiz onde, na verdade, a sustentabilidade é o fim de múltiplos processos na teia da vida.

A expressão Teia da Vida não é minha, ela dá o título de um dos livros escritos pelo físico Fritjof Capra publicado no ano de 1996. Colando parte da sinopse do livro: “A Teia da Vida apresenta novas e estimulantes perspectivas sobre a natureza da vida e abre caminho para a autêntica interdisciplinaridade”. É verdade! Essa leitura está sendo muito importante e por isso que nesse texto, trarei as ideias de dois capítulos deste livro, Alfabetização Ecológica e Ecologia Profunda, relacionando-os com um conceito que também estou aprendendo nesses dias que é o Eco-feminismo.

Dando um passo atrás para traçar nossa linha de raciocínio eu questiono: Por que a sustentabilidade pode ser considerada fim e não meio? Quando ouvimos alguém dizer: “precisamos nos reconectar com a natureza”, o que isso significa? Qual o sentido dessa reconexão? O que é estar conectado? O paradigma da Ecologia Profunda nos sugere que essa “reconexão” é o reconhecimento que integramos a natureza em sua totalidade, que não estamos alheios ou a parte dos ecossistemas que formam nosso planeta, somos integrantes intrínsecos de todos os fenômenos naturais da Terra. Querendo ou não, percebendo ou não, desde que nascemos, crescemos, nos desenvolvemos e morremos estamos conectados e aí cai por terra pensar que precisamos nos “reconectar”.

Essa percepção sobre profundidade (Ecologia Profunda) diz respeito não há uma análise rasa, ou seja, centrada nas relações humanas com o meio ambiente; mas sim, na rede de processos que estão fundamentalmente conectados e dependentes entre si. Do microrganismo que vive no solo ou no oceano até sua escolha por uma marca ou outra de sabonete líquido existem fios conectores, que se relacionam e geram desdobramentos para o sistema global. Apesar da crescente “onda ambientalista” nas sociedades, ainda estamos vivendo uma ecologia rasa que se expressa na visão de mundo e no modo de vida das pessoas centradas em si mesmas e achando que devem “salvar o mundo das cáries” (ou da poluição). 

A visão de mundo da nossa sociedade contemporânea é construída por valores fundamentais que orientam e norteiam práticas individuais e coletivas, retroalimentando um ciclo descompassado com os ciclos e padrões da natureza. Os impactos e prejuízos desse anti-ciclo são experienciados todos os dias com a destruição da biodiversidade de fauna e flora dos biomas, as catástrofes climáticas, as crises energéticas, o excesso de resíduos e toxicidades nos solos e oceanos… 

Aprender a ler a natureza
Um exemplo aleatório: só aprendemos a ler e escrever quando entramos em contato com as letras, as sílabas; quando nos apresentam sentidos que cada conjunto de fonemas representa; quando nos orientam que o conjunto de vários códigos combinados formam uma gramática, um instrumento de comunicação que permite que essas formas de linguagens se manifestem. Na lógica de ampliar nossa compreensão de pertencimento à natureza não é diferente, precisamos ser alfabetizados, precisamos aprender a forma como os elementos da natureza interagem e geram seus fluxos e constroem a vida. A metáfora da teia que nos acompanha neste caminho, se desenvolve a partir de múltiplas relações humanas e não humanas que formam comunidades ecológicas. Essas comunidades, especialmente as não humanas tem muito a nos ensinar, a sabedoria vinda da natureza “é a essência da eco-alfabetização”, afirma Capra.

Esse caminho de leitura da natureza pressupõe uma aproximação de alguns princípios básicos da ecologia, como por exemplo, a interdependência, a reciclagem, a parceria e a diversidade. Assim, destacarei mais um dos princípio citados que considero pertinente neste contexto da escrita, o da reciclagem. Os processos da natureza são cíclicos são formados por seres vivos e suas ligações, estas ligações são pontos da rede. Os seres vivos vão gerando produtos e resíduos que são consumidos por outros seres em outros pontos da rede, jogando para outro ponto em seguida e assim nosso planeta foi produzindo vida há milhares e milhares de anos. Essa reciclagem de matéria orgânica e inorgânica formam e reformam os relevos, as paisagens e a vida em sua totalidade, é um sistema que pode ser considerado fechado.


A humanidade, especialmente com o advento da industrialização e do consumo de combustíveis fósseis, por exemplo, pratica há décadas sistemas abertos de produção e reprodução da vida. Chama-se sistema aberto porque são processos unilaterais, geram resíduos que mesmo chegando em outro ponto da rede não seguem o fluxo de ciclagem, não são consumidos por outros pontos da rede, se estocam pelas realidades. Não são reformados mas formam, contribuem na construção de espaços inóspitos, difíceis de reproduzir diversidade biológica, outro princípio importante para manutenção da vida.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque percebo que a narrativa de sustentabilidade que temos hoje é rasa. Existem inúmeras empresas que querem te atrair como consumidora em nome da sustentabilidade; existem inúmeros sites, blogs e programas de televisão que te ensinam ações práticas em nome da sustentabilidade. Minha intenção neste texto é encorajar a pensar além disso. É para além do consumo de A ou B, é sobre a forma como isso é produzido. Não é sobre fazer uma horta ou um shampoo natural, é sobre de onde vem os insumos para realização da minha horta ou confecção do meu produto de higiene pessoal. E não é somente sobre todas as coisas que eu uso, mas sobre os resíduos que os meus usos geram nos ecossistemas que eu integro. 

Não estou dizendo que devemos voltar a idade da pedra, ser coletores e usar pele de animais como roupas. Mas estou sim, dizendo que precisamos questionar nossas práticas e, de maneira dialética, transformar tanto nossas ações quanto nossa forma de ver as dinâmicas da natureza e como as integramos. Para viver os princípios da ecologia que tem como fruto a sustentabilidade, precisamos questionar, precisamos nos eco-alfabetizar.

Feministas ambientais
Por último, mas não menos importante, quero trazer brevemente as contribuições do eco-feminismo para fechar nosso pensamento. Há divergências em relação às abordagens e análises entre as fases do eco-feminismo. O fato é que a mulher, historicamente ocupa um papel fundamental na preservação da biodiversidade natural, no cuidado com a terra e os seres vivos, sejam eles animais, plantas ou prole. 

O eco-feminismo busca a mobilização e articulação das mulheres pelo fim da inferiorização da mulher em relação ao homem e pelo fim da destruição da natureza através de guerras, poluição e reprodução dos processos anticíclicos já mencionados. Inclusive, Capra afirma que se os homens desenvolvessem, minimamente, as competências e a práxis das mulheres no cuidado com a Terra, não estaríamos nesse colapso socioambiental que nos encontramos.


Eu prefiro acreditar que, felizmente, as mulheres têm em si essa tendência autodidata à eco-alfabetização. Me alegro em pensar que sim, são as mulheres que não só geram vida como também possuem a potencialidade de preservá-la, guardá-la e cuidá-la. Obviamente não estou dizendo com isso que homens não tenham suas responsabilidades e dívidas históricas com Gaia, o que estou fazendo é valorizando uma práxis que foi protagonizada por mulheres ao longo do tempo que colocam algum saldo positivo na balança da humanidade. Queridas, se você não se achava feminista porque “só queria cuidar do meio ambiente” ou “lutar pela liberdade animal” ou “ combater a fome no mundo” ou “salvar as água do rio x ou z” saiba que você é sim uma revolucionária feminista, no campo ou na cidade. É essa alfabetização ecológica, e não somente ecológica, mas profundamente ecológica (sim, escreverei três vezes a mesma palavra em um parágrafo kkkkkk) totalmente perpassada pelo eco-feminismo que gerará a sustentabilidade que tanto buscamos.

Não salvaremos o meio ambiente, precisamos apenas entrar nos ciclos, viver os princípios das comunidades ecológicas. Sim, eles estão bagunçados. Nós os bagunçamos porque somos analfabetos. Sim, levará um bom tempo para o sistema conseguir reencontrar seu equilíbrio e retomar seus fluxos de forma não degradada. Isso é reparação, não é sustentabilidade, a sustentabilidade é um fim, mesmo que constantemente dinâmico e fluído na busca do equilíbrio em meio ao caos (que também é constante /o\), é um estado de bem viver sistêmico da Terra que, por acaso, nós humanos estamos incluídos.v


* Bruna de Oliveira é nutricionista e mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na UnB.  Trabalha com plantas alimentícias não convencionais nos projetos Other Food, Kaa'e-té e ReFazenda.


⁞⁞ Via RAiZ Cidadanista

___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

mais informação

Ler mais

O que querem as mulheres para 2018


3 de maio de 1933, as mulheres votam pela primeira vez no Brasil.

*Débora Lopes

Fui incumbida de uma missão extremamente nobre: pontuar necessidades para a vida da mulher brasileira em 2018. O engraçado é que, enquanto redigia o texto, me deparei com um fator horrível e, ao mesmo tempo, intrigante: tudo parecia muito básico. Como assim estamos entrando em 2018 e os homens chegam a ganhar 62,5% mais que as mulheres ocupando exatamente os mesmos cargos?

Por mais triste e deprimente que seja, reforçar esse tipo de tópico apresentando dados atuais e contundentes ajuda a termos em mente que ainda existe uma longa estrada pela frente de luta para nós. Abaixo, cinco questões políticas e sociais extremamente necessárias para que a vida das brasileiras seja mais justa no próximo ano.

Paridade salarial no fim do mês. Básico, né?
O papo de que homens e mulheres ganham o mesmo é pura lorota. Passando o olho brevemente sobre os dados divulgados pelo IBGE em 2016, a renda média dos homens brasileiros é de R$ 2.380. Já a das mulheres é de R$ 1.836. Podemos pensar que isso é por conta de cargos diferentes, mas não é. Homens chegam a ganhar 62,5% mais que as mulheres ocupando a mesma posição profissional, segundo pesquisa divulgada pela Catho este ano.

Representatividade na política nacional
O Brasil se encaixa na 154ª posição entre 193 países com relação à ocupação das mulheres nos parlamentos. Taí uma coisa que precisa melhorar. Foi um pesadelo notar somente homens brancos no primeiro ministério formado por Michel Temer. Ano de eleição, 2018 pode mudar um pouco esse game, até porque isso influencia como as pautas relacionadas às mulheres são votadas no Congresso, como o aborto.

Ter o direito de interromper uma gravidez
O Brasil dá passos pra trás quando o assunto é o aborto, uma questão de saúde pública, mas que é tratada como moral. A tal PEC 181, que fez muita mulher tomar as ruas e protestar contra a ideia de “proteger a vida desde a concepção” ficou pra 2018 e muito barulho precisará ser feito pra que ela seja revertida.

Políticas públicas para proteger vítimas e punir agressores e abusadores
É triste pensar que o repasse orçamentário destinado às políticas federais para pautas relacionadas às mulheres, à população negra e aos direitos humanos foi reduzido em 35% pelo governo federal em 2016. O Brasil ocupa o quinto lugar num ranking de 83 países com o maior índice de feminicídio, segundo dados do Mapa da Violência 2015.

Sermos cada vez menos vítimas do machismo e dos homens
Você conhece uma mulher que foi vítima de algum abuso. Eu também conheço. Você talvez seja uma dessas mulheres e eu também. O lance dos abusos e estupros praticados por passageiros de ônibus e motoristas de carro/ táxi este ano veio ainda mais à tona. Em 2016, 66% dos brasileiros presenciaram uma mulher sendo agredida física ou verbalmente, de acordo com um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.v

⁞⁞ Via Vice Brasil
___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 

Ler mais

Um brinde ao povo brasileiro


Obra do artista plástico Alemão.


Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurús conspiram na sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país...

Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta república temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Será o que Nosso Senhor quiser!...

Estou com desejos de desastres...
Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na cangerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido
Tenho desejos de gemer e de morrer.

Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua corumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...

Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.v

(Mário de Andrade O poeta come amendoim)


___________________________________________________________________
Que achou desse post?... Alí embaixo, você pode deixar seu COMENTÁRIO. 


Ler mais
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...